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Entender o preço da prata em Portugal

Há dois compradores a licitar pela mesma prata, por razões que nada têm em comum. Um adquire um ativo monetário e olha para as taxas de juro; o outro adquire um condutor elétrico e olha para as encomendas das fábricas. É essa disputa permanente que explica por que razão a prata acompanha o ouro durante quinze dias e a seguir se comporta como o cobre durante uma semana.

Entre a cotação internacional e a quantia que um comprador português entrega ao balcão há conversões que nada têm a ver com o metal. Duas delas são comuns aos dois metais e estão descritas no guia sobre o preço do ouro: a passagem do dólar ao euro e a passagem da onça ao grama. A terceira é exclusiva da prata e pesa mais do que as outras duas juntas — o IVA à taxa normal, que o ouro para investimento não paga e a prata paga sempre.

Este guia trabalha de fora para dentro: o que a cotação designa, quem a produz, de onde sai o metal, quem o consome, por que oscila mais do que o ouro e por que um gráfico não é uma tabela de preços. Não contém qualquer previsão, nem recomendação de compra ou de venda, nem aconselhamento fiscal.

Por Markus Markert · Última atualização: 11 de agosto de 2026

Índice
  1. O que a cotação designa
  2. O leilão do meio-dia em Londres
  3. De dólares para euros e para gramas
  4. Nenhuma refinaria portuguesa na lista
  5. O IVA, a cunha que o ouro não tem
  6. O regime de margem e o caminho da mercadoria
  7. Prémio, spread e o custo da ida e volta
  8. A prata portuguesa sai do cobre e do zinco
  9. A reciclagem, a parte elástica da oferta
  10. Quem consome de facto o metal
  11. O fotovoltaico e o thrifting
  12. Porque oscila mais do que o ouro
  13. Futuros, ETF e o curto prazo
  14. Ler o rácio ouro-prata
  15. Toques legais e punção
  16. O que a lei exige na transação
  17. Impostos na venda
  18. Nominal, real e leitura do gráfico
Competente. Independente. Sério.

Não vendemos ouro nem recomendamos negociantes — apenas conhecimento verificado a partir de fontes oficiais, ligado a preços em direto. Sem recomendações de compra, sem previsões.

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Tema
Gráfico do Preço do Prata
Gráfico de Preços

O gráfico mostra a evolução do preço do Prata ao longo do período selecionado. Passe o rato sobre o gráfico para ver o preço exato num dia específico.

Selecione o período acima (Hoje a Máx.). Pode ampliar uma área com o rato. Os cartões de estatísticas abaixo mostram máximo, mínimo e variação para o período selecionado.

Dica: No período "Hoje", pode ver dados intradiários com resolução ao minuto.

+0,76% 59,50
EUR
Atual
(24-08-26)
59,50 €
Dia Anterior
(21-08-26)
59,05 €
Variação
+0,45 € +0,76%
Diário Máximo
(24-08-26)
59,54 €
Diário Mínimo
(24-08-26)
58,99 €
Máximo Histórico
(29-01-26)
98,65 €
Preço do Prata Movimento de hoje: Atual 59,50 € (24-08-26), Máximo 59,54 € (24-08-26), Mínimo 58,99 € (24-08-26), Variação +0,76 %.

O que a cotação da prata designa

O número que circula nos ecrãs é o preço à vista: metal disponível agora, não numa data futura. Uma onça troy — 31,10 gramas — com toque mínimo de 999 milésimos, depositada num cofre aprovado de Londres, entregue dois dias úteis depois de fechado o negócio. A cotação é em dólares dos Estados Unidos e sempre o foi.

Não nasce numa bolsa. Bancos, refinarias, casas de negociação e utilizadores industriais transacionam bilateralmente, sem livro de ordens central e sem registo público de cada operação, e o saldo desses negócios é o que um serviço de cotações comunica como prata à vista.

Três consequências que atravessam o resto do guia

  • É um preço grossista. A cotação descreve negócios por grosso em lotes normalizados, pelo que nenhum particular transaciona a esse preço.
  • É um número em dólares. Qualquer valor em euros já é uma conversão.
  • Refere-se a metal em Londres, não a uma moeda guardada numa gaveta em Braga.

A cotação do momento está na página da prata.

Importante

A cotação é o ponto de partida da conta, nunca o preço de uma compra: entre ela e o balcão ficam o fabrico, a distribuição, a margem e o imposto.

O leilão do meio-dia em Londres

A par da cotação em movimento contínuo há um número fixo publicado em cada dia útil. Às 12:00 de Londres abre um leilão eletrónico: o administrador publica um preço inicial, os participantes declaram os volumes que compram ou vendem e, se os dois lados não coincidirem, o preço é ajustado em rondas sucessivas até a diferença descer abaixo de um limiar. O preço de fecho torna-se a referência do dia, em dólares por onça, e é contra ele que refinarias faturam e carteiras são avaliadas. Convém separar as duas ideias: o fixing é uma fotografia de liquidação, o spot é o mercado a correr.

Uma vez por dia, ao contrário dos outros metais

Repare-se na assimetria com os outros metais.

Metal Leilões diários Horas de Londres
Ouro Dois 10:30 e 15:00
Platina e paládio Dois 09:45 e 14:00
Prata Um 12:00

Em Portugal continental o fuso é o mesmo de Londres, pelo que o leilão acontece efetivamente às 12:00 locais, e nos Açores uma hora mais cedo.

Nota

A compra e venda de metal físico não é atividade financeira: não há supervisão da CMVM sobre uma transação de prata, não existe sistema de indemnização aos investidores e a Euronext Lisbon não admite contratos sobre metais preciosos.

O guia da platina e do paládio trata do resto do complexo.

De dólares para euros e de onças para gramas

Este é o terreno que a prata partilha integralmente com o ouro e por isso fica curto aqui. O Banco de Portugal não fixa cotações próprias: no caso do ouro limita-se a reencaminhar a notação de Londres, convertida ao câmbio de referência do Banco Central Europeu e expressa em euros por grama. O guia sobre o preço do ouro descreve esse circuito, incluindo o efeito do câmbio euro-dólar sobre uma posição denominada em euros.

Para a prata não existe sequer esse reencaminhamento oficial. A referência que chega ao consumidor vem diretamente do mercado internacional, através dos serviços de cotação e das tabelas dos negociantes, que o regime jurídico da ourivesaria obriga a manter disponíveis e afixadas nos locais de compra. Há ainda uma diferença de escala visível na unidade: como um grama de prata vale uma fração ínfima de um grama de ouro, o comércio raciocina em quilogramas, em onças ou em peças inteiras. A calculadora de prata converte qualquer peso e toque num valor de metal.

Nenhuma refinaria portuguesa na lista Good Delivery

A expressão aparece com frequência em material comercial e vale a pena fixá-la. A Good Delivery da LBMA é uma especificação grossista: enumera as refinarias cujos lingotes Londres aceita sem novo ensaio, fixa peso, forma, marcação e pureza admissíveis e define a cadeia de integridade que mantém um lingote aceitável enquanto circula entre cofres aprovados.

O facto português é simples: nenhuma refinaria portuguesa consta dessas listas, nem no ouro nem na prata, e também não aparece nas listas históricas. Portugal não certifica metal grossista. Todo o metal por grosso que circula no país foi refinado e marcado fora, e o mercado nacional é integralmente tomador de preço. A Good Delivery nunca foi uma categoria de retalho: no momento em que um lingote sai da cadeia aprovada perde o estatuto que o distinguia. O que é útil é a lista de refinarias acreditadas por trás da norma, porque uma barra pequena vinda de uma delas traz uma marca de ensaio reconhecida.

O IVA, a cunha que o ouro não tem

Aqui está a cunha que nenhum gráfico mostra e que separa definitivamente os dois metais. O ouro para investimento está isento de IVA pelo Decreto-Lei n.º 362/99, que fixa requisitos precisos de toque, de forma e, nas moedas, de curso legal e de preço. Para a prata o legislador nunca escreveu norma equivalente: a prata é um bem tributável comum e segue a taxa normal do artigo 18.º n.º 1 alínea c) do Código do IVA, tal como a platina e o paládio.

Aspeto Ouro para investimento Prata
IVA na compra Isento, pelo Decreto-Lei n.º 362/99 Taxa normal, pelo artigo 18.º n.º 1 alínea c) do Código do IVA
Taxa reduzida na importação de moedas de coleção Não existe: a redução é só para objetos de arte
Leilão de referência em Londres Duas vezes por dia Uma vez, ao meio-dia

Três taxas para o mesmo metal

A taxa também não é única no território. São 23 % no continente, 22 % na Madeira e 16 % nos Açores, valores inalterados em 2026 e assentes, desde a Lei n.º 12/2022, na autorização do artigo 18.º n.º 3. Para a mesma cotação internacional e a mesma peça, o preço final difere consoante a região em que a operação é localizada — uma variação de origem exclusivamente fiscal, invisível em qualquer série de cotações.

O imposto entra e não volta a sair

À entrada, o particular paga o metal, os custos de transformação e distribuição e, sobre esse conjunto, o imposto. À saída, vendendo como particular, não liquida IVA nenhum: recebe um valor derivado de uma cotação que nunca teve imposto dentro dela.

Aviso

O IVA pago à entrada não é recuperável por um particular em momento nenhum.

A posição começa, portanto, abaixo da cotação num montante que não depende do mercado e cuja dimensão varia com a taxa, o formato e as condições comerciais do momento — razão pela qual não é aqui quantificada. As regras estão reunidas na entrada sobre o IVA na prata. Ao contrário da Alemanha, Portugal também não tem taxa reduzida na importação de moedas de coleção: o artigo 15.º alínea a) do Decreto-Lei n.º 199/96 beneficia apenas objetos de arte.

O regime de margem e o caminho da mercadoria

Existe uma exceção parcial, mais estreita do que a leitura apressada sugere. O Decreto-Lei n.º 199/96 exclui os metais preciosos do regime da margem no artigo 2.º alínea a), mas retira expressamente dessa exclusão as «moedas ou artefactos». Uma moeda de prata pode, em abstrato, ser vendida com tributação apenas sobre a margem do comerciante em vez de sobre o preço total.

O que decide é o percurso da peça, não a peça

O artigo 3.º n.º 1 exige que o bem tenha sido adquirido a um particular, a um sujeito passivo isento ou a outro revendedor em regime de margem. Uma moeda acabada de cunhar e comprada ao circuito grossista não cumpre esse requisito e carrega a taxa normal sobre o preço inteiro; a mesma moeda, adquirida a um particular ao balcão, já pode seguir o regime da margem. Duas moedas idênticas podem assim estar na mesma montra a preços diferentes, por uma razão puramente fiscal ligada ao percurso anterior da peça. A prática alemã, em que a tributação pela margem é a via corrente para a prata de investimento, não se transpõe para Portugal.

Prémio, spread e o custo da ida e volta

Por cima do imposto fica o prémio habitual: refinação, cunhagem, embalagem, transporte seguro, financiamento de existências e a margem do negociante. Estes custos são semelhantes em valor absoluto para uma peça de prata e para uma de ouro, mas a peça de prata contém uma fração mínima do valor em metal — logo, o mesmo custo de manuseamento expresso em percentagem é incomparavelmente maior. Na prata essa percentagem cai de forma acentuada à medida que a unidade cresce, o que faz do formato uma decisão de custo e não de gosto.

O spread é a outra metade da conta: o preço a que um negociante recompra fica abaixo da cotação e o preço a que vende fica acima dela, e para um particular o imposto pago à entrada não é recuperável em momento nenhum. A ida e volta na prata custa, por isso, proporcionalmente mais do que a ida e volta no ouro, antes sequer de o metal se mexer.

Dica

Para comparar ofertas, reduza cada uma a um custo total por grama de prata fina, imposto incluído, e coloque-a ao lado da cotação do momento — que é o que faz a calculadora de preço de compra.

A escolha entre moedas e barras pertence ao guia sobre comprar prata.

A prata portuguesa sai do cobre e do zinco

Quase nenhuma prata é extraída por si própria. A maior parte do metal que chega ao mercado é recuperada ao lado de outros metais — chumbo e zinco acima de tudo, depois cobre e ouro — e aparece na contabilidade da mina como um crédito que reduz o custo do produto principal. Portugal é um caso de manual desta estrutura.

Neves-Corvo: a prata é uma linha de receita

Neves-Corvo, na faixa piritosa ibérica, produziu 58.718 kg de prata em 2025, a par de 30.665 toneladas de cobre e 110.600 toneladas de concentrado de zinco; a mina pertence à Boliden desde abril de 2025. A prata não é o motivo pelo qual aquela mina existe: é uma linha de receita que melhora o custo do cobre e do zinco, e nenhuma decisão de extração é tomada em função da cotação da prata. É essa indiferença que explica a rigidez da oferta mundial.

Aljustrel: parou por causa do zinco

O segundo exemplo é ainda mais eloquente. Aljustrel, com minério de zinco, chumbo e prata, suspendeu a produção de concentrados em setembro de 2023 por causa dos preços baixos do zinco: deixou de sair prata dali por uma razão que nada tem a ver com a prata. Em Aljustrel há atividade mineira documentada há mais de dois mil anos. Daqui decorre a afirmação estrutural mais importante deste guia: um desequilíbrio entre o que o mundo quer e o que produz não se resolve extraindo mais ou menos prata em nenhum prazo que um gráfico registe. Resolve-se pelo preço.

A reciclagem, a parte elástica da oferta

A parte da oferta que reage é a secundária. A reciclagem alimenta-se de pratas de família, faqueiros, taças e serviços de mesa, de resíduos industriais e contactos gastos, de material fotográfico e radiográfico antigo e, cada vez mais, de equipamento eletrónico em fim de vida. Ao contrário de uma mina de zinco, uma casa com uma gaveta de talheres esquecidos responde a um preço alto em poucas semanas.

Os limites contam tanto como a elasticidade. Uma parte substancial da prata industrial acaba dispersa em películas, pastas e revestimentos medidos em micrómetros, dos quais a recuperação custa mais do que o metal vale: não se perdeu em sentido físico, mas é economicamente irrecuperável aos preços correntes. Do lado do vendedor há um pormenor português que afeta o preço recebido: ao comprar prata usada a um particular, o comerciante fica sujeito a um dever de registo pesado e não pode transformar nem revender a peça durante um período de espera, e esse custo administrativo entra na proposta feita ao balcão.

Quem consome de facto o metal

É na procura que a prata se afasta do ouro de forma mais nítida. Divide-se em blocos de natureza muito diferente, cujos pesos relativos mudam de ano para ano e de fonte para fonte — o que se segue é uma ordem de grandeza, não uma casa decimal.

Bloco de procura O que abrange Como reage ao preço
Fabrico industrial Fotovoltaico, eletrónica, contactos elétricos, ligas de brasagem, eletricidade automóvel, usos médicos Praticamente indiferente no curto prazo
Investimento físico Barras, moedas e metal em cofre Sobe com a força do mercado e desaparece com a fraqueza
Joalharia Índia e Leste Asiático, mais a prata de moda ocidental Genuinamente elástica; o comprador recua quando o preço sobe
Baixela e talheres Serviços de mesa, taças, artigos de oferta Declínio estrutural nos mercados ocidentais

O bloco industrial é aproximadamente metade do total, com a ressalva de que a repartição varia consoante a fonte e o ano. Nenhum elemento conduz melhor a eletricidade ou o calor, pelo que a prata industrial aparece onde as perdas têm de ser mínimas ou onde um contacto tem de sobreviver a milhões de comutações.

Portugal aparece deste lado da equação como consumidor industrial, não como produtor. A produção automóvel nacional atingiu 341.361 veículos em 2025, com 97,8 % de exportação, e uma única unidade em Palmela representa cerca de 70 % desse volume — eletrónica de bordo e contactos elétricos, o tipo de aplicação onde a prata entra em quantidades pequenas por peça e grandes por série.

O fotovoltaico e o problema do thrifting

O fotovoltaico merece tratamento separado por ser simultaneamente a maior história de crescimento da procura de prata e a mais frequentemente simplificada. As células cristalinas são impressas com uma pasta condutora contendo prata, que forma as linhas finas encarregadas de levar a corrente para fora da bolacha de silício; cada gigawatt adicional instalado puxou mais metal para o setor, e a entrada sobre prata fotovoltaica descreve o processo.

O thrifting corre em sentido contrário

Contra isso corre o thrifting, a redução deliberada da quantidade de metal por célula. A prata é um dos poucos custos que um fabricante consegue espremer, e a indústria passou anos a baixar os gramas por unidade com impressão mais fina, metalizações alternativas e arquiteturas redesenhadas — embora algumas gerações recentes consumam mais prata por watt do que as que substituem. Crescimento das instalações, thrifting e mudança de tecnologia trabalham uns contra os outros: a direção é ascendente, o declive é incerto. Vale ainda uma distinção que evita conclusões erradas — o ritmo a que se instalam painéis em Portugal não move a cotação, porque o que conta é a procura global de células e não o país onde são montadas. A procura industrial tem, ainda assim, ritmos anuais — calendário de instalação, paragens do Ano Novo chinês, época de casamentos na Índia — visíveis nas estatísticas mensais da página de sazonalidade.

Porque é que a prata oscila mais do que o ouro

Ao longo de um ciclo completo a prata é bastante mais volátil do que o ouro: sobe mais nas fases boas e devolve mais nas más. Quatro mecanismos compõem-se entre si, e todos já apareceram acima.

Mecanismo Como atua sobre o preço
Escala Medido em dinheiro, o mercado da prata é uma fração do mercado do ouro: uma alocação que o ouro absorve sem estremecer desloca a prata de forma visível
A metade fabril Cerca de metade do consumo segue o ciclo industrial; uma expansão traz ao mercado diretores de compras e investidores ao mesmo tempo, uma contração retira os dois de uma vez
Alavancagem Os volumes contratados são um múltiplo largo dos fluxos físicos, pelo que em dias ou semanas o reposicionamento de operadores alavancados pesa mais do que o que acontece ao metal
Oferta rígida Com a produção mineira incapaz de responder, o ajustamento cai inteiramente sobre o preço

Duas conclusões

Cuidado

Quem procura um ativo de refúgio escolheu o metal errado: uma série de ouro conta habitualmente uma história mais calma.

Falta ainda à prata a procura oficial que sustentou o ouro nos últimos anos: os bancos centrais praticamente não detêm prata. As reservas do Banco de Portugal são de ouro, mantidas sem alterações desde 2006, e não existe nenhuma reserva pública de prata.

Futuros, ETF e a formação do preço a curto prazo

A direção de curto prazo decide-se geralmente em Nova Iorque e não em Londres. O contrato de referência corre na COMEX, cada um cobrindo 5.000 onças troy, e quase nenhum detentor tenciona receber metal: as posições são coberturas, especulações ou exposições transferidas de mês para mês e encerradas antes do vencimento. As existências divulgadas — a tonelagem mensal dos cofres de Londres e os armazéns da COMEX — mostram menos metal realmente disponível do que os totais sugerem, e quando essa reserva afina o preço próximo pode subir acima do preço a prazo, um estado conhecido por backwardation que sinaliza aperto físico e nunca uma previsão.

Os volumes envolvidos ultrapassam largamente o mercado físico, como em qualquer matéria-prima, o que significa que uma mudança de opinião entre os maiores participantes financeiros desloca o preço mais depressa do que qualquer alteração na produção mineira ou nas encomendas industriais. Ao lado ficam os produtos cotados: um ETF de prata mantém metal num cofre, emite unidades lastreadas nele e publica posições diariamente, o que faz deles o melhor indicador público de sentimento disponível. Um título não é metal, porém, e em Portugal a distinção não é apenas conceptual: o tratamento fiscal desses produtos nada tem em comum com o de uma moeda ou de uma barra.

Ler o rácio ouro-prata sem lhe pedir demais

Nenhum número é citado com mais frequência nos comentários sobre prata do que o rácio ouro-prata. Divide-se o preço do ouro pelo preço da prata e obtém-se quantas onças de prata se trocam por uma onça de ouro. A moeda desaparece da conta, pelo que um leitor em Lisboa e outro em Chicago chegam ao mesmo valor sem converter nada, e a série pode ser seguida ao longo de séculos. O valor atual e o seu histórico estão na página do rácio.

A amplitude é enorme: fixado por lei nos padrões bimetálicos, o rácio flutua desde que a prata perdeu o papel monetário e já esteve em três dígitos e numa fração disso.

Aviso

Nenhuma força obriga o rácio a regressar a um valor determinado. Sempre que alguém invoca um nível «correto», vale a pena perguntar que período foi usado para calcular essa média.

Usado com cuidado, o rácio mede um metal contra o outro e mais nada: um rácio largo significa que a prata está barata em termos de ouro, o que nada diz sobre se algum dos dois está caro ou barato em euros. Em Portugal há ainda uma assimetria que o rácio não mostra — passar de ouro para prata atravessa a fronteira do IVA e acrescenta o imposto ao valor comprado, ao passo que o caminho inverso não o devolve.

Toques legais da prata e a punção da Contrastaria

Em Portugal o toque não é uma indicação voluntária do fabricante: é matéria pública. Os toques legais da prata são 999, 925, 835, 830 e 800 milésimos — uma escala mais fina do que a de outros mercados europeus, onde os valores intermédios raramente aparecem. A verificação cabe às Contrastarias, o serviço público de contraste sediado em Lisboa e no Porto e operado pela INCM, com fiscalização da ASAE; a marcação é um ato de autoridade e não uma declaração comercial, e a punção aposta em lingotes é a esfera armilar móvel.

As moedas de investimento com curso legal estão expressamente excluídas do regime da ourivesaria, ao passo que as barras não estão. Sobre a exigência de contraste para lingotes importados com certificação estrangeira não existe posição pública clara, e este guia não a inventa. A ligação ao preço é direta e é a razão de o assunto aparecer aqui e não apenas num guia de compra: o que se paga num objeto de prata é o peso fino, isto é, o peso bruto multiplicado pelo toque, e não o peso da peça. Um serviço em 800 milésimos contém um quinto menos de metal do que o mesmo peso em 999, e a calculadora de valor de fusão faz essa conta.

O que a lei exige a quem transaciona prata

Do lado do comércio, o regime jurídico da ourivesaria impõe obrigações que se refletem no preço visível ao balcão: só pode ser exposta mercadoria legalmente marcada, o estabelecimento tem de dispor de lupa e de balança aferida e cada peça leva etiqueta com metal, toque e peso. E há uma obrigação particularmente relevante aqui — manter disponível a cotação do dia do ouro, da prata, da platina e do paládio, afixada nos locais de compra, com o comércio em linha a acrescentar a ligação à cotação e ainda o nome, o NIF e o número do título de atividade. Não existe registo público pesquisável de operadores, pelo que essa numeração é o único caminho de verificação.

O pagamento tem limites próprios. O artigo 63.º-E da Lei Geral Tributária proíbe o pagamento em numerário de transações de qualquer natureza a partir de 3.000 €, incluindo entre particulares. O limite específico de 250 € aplicável às transações de ouro não abrange a prata, que fica sujeita apenas ao limite geral. Os comerciantes de metais preciosos são ainda entidades obrigadas ao abrigo da Lei n.º 83/2017, com identificação do cliente a partir de 3.000 € em numerário ou 10.000 € por outro meio, como descreve a entrada sobre a lei do branqueamento de capitais. Na compra a particulares acresce um registo diário com fotografia a cores e cópia do documento de identificação, conservação por cinco anos, comunicação semanal à Polícia Judiciária e proibição de alterar ou revender a peça durante vinte dias.

Importante

Vender prata a um comerciante português não é anónimo — apenas não é tributado.

Uma última assimetria: o dever de declarar valores nas fronteiras externas da União abrange apenas o ouro — a prata, a platina e o paládio não constam dessa lista.

Impostos na venda: metal físico e prata em papel

Este ponto pertence ao guia dos impostos sobre metais preciosos e fica aqui no essencial. O artigo 10.º n.º 1 do Código do IRS enumera de forma fechada os factos que geram mais-valias e as coisas móveis corpóreas não figuram nessa lista, pelo que a venda de prata física por um particular não é tributável em IRS. Não é uma isenção, mas a ausência de facto tributário — daí não existir prazo de detenção nem limite de valor, ao contrário do prazo de especulação do direito alemão, que não tem equivalente português.

Três reservas

Três reservas acompanham sempre esta afirmação. A compra sistemática para revenda pode configurar rendimento da categoria B, bastando um ato isolado de natureza comercial, e nessa hipótese conta o valor recebido e não o ganho. O artigo 87.º n.º 1 alínea f) da Lei Geral Tributária permite avaliação indireta perante acréscimos de património acima de 100.000 € não justificados, com o ónus da prova do lado do contribuinte — razão prática para guardar as faturas de compra de forma permanente. E os produtos em papel seguem outra regra: fundos, ETC, certificados, derivados e contas de metal não alocado são tributados à taxa autónoma de 28 %, com 35 % quando envolvem jurisdições listadas e possibilidade de englobamento, cenário que a calculadora de impostos permite modelar.

Não há jurisprudência portuguesa nem informação vinculativa da Autoridade Tributária sobre metais preciosos: a leitura acima decorre da estrutura da lei e da proibição de analogia em matéria de incidência. E há uma simetria que fecha o círculo: a prata é tributada à entrada, pelo IVA, e não à saída — o imposto não desapareceu, foi pago antes de o gráfico começar a contar.

Nominal, real e como ler um gráfico da prata

Um gráfico longo de prata em euros nominais é um objeto enganador, mais do que em quase tudo o resto, porque o grande pico do metal ocorreu em janeiro de 1980 — recuado o suficiente para que a inflação tenha transformado a comparação. Há ainda um obstáculo português: o escudo foi convertido à taxa fixa de 200,482 escudos por euro e o euro só entrou em circulação em 1 de janeiro de 2002, pelo que qualquer série anterior é uma reconstrução. A ideia associada é a taxa de juro real, a taxa nominal menos a inflação, que define o custo de oportunidade de deter um metal que não paga nada. O mesmo vale para o argumento da proteção contra a inflação, fiável ao longo de séculos e não de décadas.

Cinco verificações tornam honesto qualquer gráfico de prata.

  • Moeda. Um gráfico em euros mistura o metal com o câmbio.
  • Data inicial. Uma série que começa num vale favorece o metal; outra que começa num pico condena-o.
  • Escala. Em períodos longos só a escala logarítmica mostra a variação proporcional com honestidade.
  • Unidade. Onças, gramas e quilogramas dão números muito diferentes para metal idêntico.
  • Que preço. O spot, o leilão do meio-dia e a tabela de um negociante são três números diferentes, e em Portugal só o terceiro inclui IVA.

O histórico de preços permite aplicar estas verificações ao mesmo período. Para quem constrói uma posição ao longo de anos, o que se paga acima da cotação conta mais do que a data no recibo — daí a calculadora de plano de poupança.

Uma última delimitação: este texto não contém previsões, recomendações de compra ou de venda, nem indicação de fornecedores ou locais de guarda. Não substitui aconselhamento fiscal — a não sujeição a IRS decorre da estrutura da lei e não de jurisprudência ou de informação vinculativa, que sobre metais preciosos não existem. Não quantifica prémios, spreads nem volatilidade, e descreve apenas o direito português.

Calculadoras para este tema

Perguntas frequentes

Porque é que a prata paga IVA e o ouro para investimento não?

Porque a isenção portuguesa foi escrita apenas para o ouro. O Decreto-Lei n.º 362/99 isenta de IVA o ouro para investimento que cumpra requisitos definidos de forma, toque e, nas moedas, de curso legal e de preço. Não existe norma paralela para a prata, que continua a ser um bem tributável comum: aplica-se-lhe a taxa normal do artigo 18.º n.º 1 alínea c) do Código do IVA. A platina e o paládio estão na mesma posição.

A taxa de IVA sobre a prata é igual em todo o país?

Não. A taxa normal é de 23 % no continente, 22 % na Região Autónoma da Madeira e 16 % na Região Autónoma dos Açores, valores que se mantêm em 2026. Para o mesmo lingote e a mesma cotação internacional, o preço final ao consumidor difere consoante a região em que a operação é localizada — uma diferença que nenhum gráfico de prata mostra.

Vender prata física em Portugal paga IRS?

O artigo 10.º n.º 1 do Código do IRS enumera de forma fechada os factos que geram mais-valias e as coisas móveis corpóreas não constam da lista. Não se trata de uma isenção, mas da ausência de facto tributário — e por isso não existe prazo de detenção nem limite de valor. Três reservas acompanham esta afirmação: a compra para revenda pode configurar categoria B, o artigo 87.º n.º 1 alínea f) da LGT permite avaliação indireta acima de 100.000 € não justificados, e os produtos em papel seguem outra regra. Não há jurisprudência nem informação vinculativa sobre metais preciosos.

Porque é que a prata tem apenas um leilão diário e o ouro tem dois?

É uma questão de dimensão e de hábito. O preço de referência da prata é apurado uma vez por dia útil, às 12:00 de Londres, enquanto o ouro é leiloado às 10:30 e às 15:00 e a platina e o paládio às 09:45 e às 14:00. O mercado da prata é bastante menor em valor e tem menos contratos indexados a um número fixo, pelo que nunca precisou de uma segunda ronda.

Existe alguma refinaria portuguesa na lista Good Delivery da LBMA?

Não. Nenhuma refinaria portuguesa consta das listas Good Delivery da LBMA — nem para o ouro, nem para a prata — e também não aparece nas listas históricas. Na prática, o metal grossista que circula em Portugal é refinado e certificado fora do país, e o mercado português é integralmente tomador de preço. Para um comprador particular o que interessa é que a peça venha de uma refinaria acreditada.

Portugal produz prata?

Produz, mas nunca como objetivo principal. Sai como subproduto de metais de base: Neves-Corvo produziu 58.718 kg de prata em 2025, a par de 30.665 toneladas de cobre e 110.600 toneladas de concentrado de zinco, e pertence à Boliden desde abril de 2025. Aljustrel, com minério de zinco, chumbo e prata, suspendeu a produção de concentrados em setembro de 2023 por causa dos preços baixos do zinco. Não existe em Portugal nenhuma mina que viva do preço da prata.

Um rácio ouro-prata elevado é um sinal de compra?

É uma afirmação relativa, não um sinal. O rácio diz quantas onças de prata se trocam por uma onça de ouro; um valor alto significa que a prata está barata face ao ouro, o que é igualmente compatível com os dois metais estarem caros ou os dois estarem baratos. Em Portugal há ainda um detalhe que o rácio não mostra: trocar ouro por prata atravessa a fronteira do IVA numa direção e não a devolve na outra.

Posso pagar prata em dinheiro?

Até ao limite geral. O artigo 63.º-E da LGT proíbe o pagamento em numerário de transações de qualquer natureza a partir de 3.000 €, incluindo entre particulares. O limite específico de 250 € previsto no regime da ourivesaria aplica-se a transações de ouro e não à prata. Os comerciantes de metais preciosos são entidades obrigadas ao abrigo da Lei n.º 83/2017 e identificam o cliente a partir de 3.000 € em numerário ou 10.000 € por outro meio de pagamento.

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Escrito e mantido por Markus Markert. Conteúdo editorial — não constitui aconselhamento de investimento, recomendação de compra nem previsão de preços. Os valores são verificados face a fontes oficiais e atualizados regularmente.

Voltar aos guias Última atualização: 11 de agosto de 2026

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